Berços vazios

Gosto do Convento dos Cardaes, antigo convento na Rua do Século, cujo edifício resistiu ao terramoto de 1755 e à perseguição das ordens religiosas e que continua hoje a cumprir uma vocação, o apoio a jovens e mulheres deficientes, que aí têm o seu lar.
Logo na entrada, o convento exibe, preservada e em muito boas condições, a famosa roda dos «expostos». Ou seja, passo a explicar, uma janela em madeira com uma plataforma que rodava e permitia a quem viesse da rua aí colocar uma criança indesejada ou órfã, rodar o mecanismo que implicava o tocar de um sino, para que alguém do convento a recolhesse depois.
E assim se salvaram inúmeros inocentes. Algumas das Misericórdias do país tinham também sistemas semelhantes e a Santa Casa de Lisboa, possui ainda um arquivo de sinais das crianças expostas, o que não deixa de nos comover, porque de uma maneira geral, a intenção de quem a entregava era poder vir a buscá-la mais tarde.
Vem isto a propósito do menino que foi enfiado nu, esta semana, num caixote do lixo em Lisboa, e que, só por acaso, foi resgatado por um sem abrigo. O menino está agora a salvo num hospital e será com certeza encaminhado para adoção e terá um futuro e uma família à sua espera, que bem merece.
Pode uma mãe, ou um pai não querer ou não poder criar o seu filho, mas pelo menos lembremos a roda dos enjeitados. Ás vezes, parece, que andamos para trás, pois mais valia esta roda centenária do que o caixote do lixo dos dias de hoje.