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Ninguém é feliz sozinho

Ninguém é feliz sozinho

Fechados em casa mas abertos para o mundo

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Estamos confinados em casa mas abertos para novas partilhas. E assim tem sido com o meu grupo de pilates. Apesar de os ginásios estarem fechados, ficar sem fazer algum exercício não é  aconselhável. E vai daí o mestre lá conseguiu organizar o grupo de forma tecnológica, com o recurso ao famoso zoom.

Com mais, sobretudo para os principiantes no sistema como eu e outros, ou menos dificuldades, no caso dos mais jovens e mais familiarizados, lá nos fomos adaptando. Houve de tudo é certo. Uma das colegas telefonou-me muito preocupada porque só conseguia entrar no zoom já a aula ia a meio e perguntou-me como é que eu fazia. Expliquei-lhe que abria o computador e seguia o link do convite do professor uns minutos antes da hora, para dar tempo para eventuais problemas, aguardando assim que o anfitrião desse início à sessão . 

Telefonou ontem, muito contente, porque afinal já tinha conseguido seguir a aula graças à minha sugestão.  Explicou ela, «é que aula não começa à hora indicada, começa bem antes,».Como? «eu sigo sempre as horas cá em casa pelo relógio de caixa alta que está na entrada, que apesar de ter sido dos meus sogros, continua a funcionar muito bem, e ontem já a aula ia a meio quando o relógio bateu as 9 horas...»

Posto isto, concordámos ambas que o melhor mesmo era abrir sempre o zoom com antecedência, não fossem os relógios andarem baralhados.

Por entre a sombra dos bambus

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Eram quatro amigas, jovens e bem arranjadas, numa tarde de sol lisboeta, sombreada pelos bambus.

Uma delas, com uns bonitos óculos verdes, queixava-se que lhe tinha telefonado a Micas, a dizer que «como ela estava solteira, tinha pedido ao Miguel que a acompanhasse à festa da Inês.»

A dos óculos, indignava-se, «foi pedir ao Miguel, sem sequer me ter perguntado nada...»

Numa cena que poderia ter surgido nas séries americanas,  «Sexo e a cidade», ou mais recentemente no «Girls», as outras concordavam.

Aquilo não se fazia, não senhor.

Eis então que remata a menina dos óculos, «sim, pois se é para arranjar um acompanhante ou um namorado ou um não sei quê, eu arranjo, de um dia para o outro, nunca tive dificuldade, pode é ser um cabrão como os outros.»

Todas riram, mas não houve nenhuma que dissesse, «tu tens é tido pouca sorte, e isso vai mudar, verás.»

Escassa vai a fé das jovens nos seus companheiros masculinos.

 

E quando um elefante se atravessa no nosso caminho

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O que fazer quando o elefante aparece no meio da estrada?  Pois, já agora tirar uma foto, claro.

Vem isto a propósito das dificuldades de cada um, vindo-me à memória uma história familiar, passada há muitos anos, quando os carros eram ainda raros, as estradas más e as comunicações quase inexistentes.

No dia de anos de um dos petizes, o automóvel subia devagar a Serra da Estrela, rumo à aldeia natal do avô, onde a família tinha combinado encontrar-se e celebrar o aniversário.

Acontece que o carro parou no meio da subida., «E agora», dizem as filhas aflitas, «o que fazer»? «Temos de esperar que algum carro passe para cima ou para baixo e pedir que avisem o mecânico da aldeia, para vir cá acima, com as ferramentas e as peças para desempanar o carro», disseram os mais sensatos. 

E assim fizeram, saíram todos do carro, as crianças, as mães, os pais e o avô, pois nesse tempo, não havia grandes restrições de lugares, nem cadeirinhas de transporte para os mais novos, que iam ao colo dos adultos, e toca a correr e a brincar no meio da serra.

O tempo passava, nada de viaturas à vista e o estômago reclamava.

Foi então que o avô se lembrou, virando-se para a filha mais velha, «Maria Alzira, vocês não trazem aí o necessário para os anos do Toninho?»

E vai de abrir os cestos, retirar os doces, o bolo das velas, os salgados e as bebidas e festejar finalmente o aniversário.

Por fim, apareceu um carro, veio o mecânico e tudo se arranjou. Partiram então, dizendo o avô, «por mais anos que celebre o nosso Toninho, nunca se vai esquecer deste passado no meio da Serra.» 

 

Retratos de imigrantes

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Ao pé de mim vive uma jovem família de imigrantes. Fixaram-se no nosso país há mais de uma década, primeiro o homem, para trabalhar na construção, depois a mulher nas limpezas, tendo mais tarde nascido uma menina.

Vieram do leste, procurando melhores condições que encontraram por cá.

Ao princípio, tudo foram dificuldades, a língua tão diferente, até o alfabeto que é outro o cirílico e perceber as pessoas sempre prontas a enganar os ingénuos. Mas foram ficando e adaptando-se a novas formas de viver.

Depois de a menina ter nascido, quis a mãe ir mostrá-la à avó e restante família, que por lá ficou. Muito natural para quem não tem cá qualquer apoio familiar.

Difícil mesmo era a viagem, o avião não, por ser caro e haver grande apreensão com as diferentes línguas estrangeiras e as mudanças de aeroportos.

E assim, meteram-se mãe e filha ainda de colo, numa camioneta, que durante quatro noites e quatro dias, as levaria ao seu destino, Sofia na Bulgária.

Não houve incidentes de maior, a menina teve de ir ao colo da mãe, pois o autocarro foi sempre enchendo por essa Europa fora. No autocarro, nada de instalações sanitárias, nem sei mesmo se havia cinto de segurança. Mudar uma fralda, dar um biberão ou um parecetemol para a febre, eram um tormento. As paragens eram poucas e sempre muito curtas.

Dia e noite lá seguiram. Quando finalmente chegaram, a mãe tinha os pés inchados que nem bolas de futebol. Mas tinham conseguido e tinham tido muita sorte.

Não fugiam da guerra e tinham parentes e um lar à espera.  

 

 

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