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Ninguém é feliz sozinho

Ninguém é feliz sozinho

As crises que nos caem em cima

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E de súbito, chegou um grande abanão no conforto das nossas, mais ou menos regaladas, vidas europeias. Paz, poder de compra, sistemas de saúde, segurança social, escolaridade universal, reformas...Pode ficar tudo de pantanas, de um momento para o outro, por obra de um minúsculo e quase invisível vírus.

Estamos todos muito preocupados e com razão.

Mas na linha de apoio telefónico, Conversa Amiga, na qual sou voluntária, as reações dos apelantes têm sido muito diversas. As pessoas que nos telefonavam todos os dias, deprimidas, tristes, ansiosas ou zangadas, estão agora mais apaziguadas porque um perigo maior se levantou e as suas pequenas misérias diárias deixaram de ser o centro das suas aflições.

Por outro lado, as reações humanas são tão diferentes que encontrei o rapaz que tem medo de sair à rua, agora  muito feliz porque finalmente o pai não lhe diz constantemente para ir até ao café. Também falei com a professora reformada que se recusa a ver televisão, porque são só más notícias e quer ir dar o seu giro diário porque sempre fez assim e essa coisa do vírus, sim, sim a vizinha já lhe falou, mas não vai mudar nada, porque farta de estar sozinha em casa, está ela.  E convencê-la do contrário?

Sons e imagens da quarentena

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Nunca pensei que gostasse tanto de ouvir o barulho das obras de construção de um prédio novo na rua em frente. Começa muito cedo, com o abrir dos portões, a entrada das motas dos operários, quase todos africanos, brasileiros ou ultimamente sikhs de grandes turbantes. Depois os carros dos técnicos e mais pelo meio da manhã chegam as enormes camionetas com o material, que costumavam atravancar o trânsito. Costumavam, porque agora não empatam coisa nenhuma, pois não há trânsito. 

Também é bom verificar pelo arrastar da porta, que o Senhor António continua a abrir o estaminé para vender comida para fora, porque se fechar, diz ele, sabe que muitos dos numerosos idosos da zona irão ficar sem a sua refeição quente e como vai ele pagar as contas e os salários das duas empregadas?

Ouço ainda um cãozito a ladrar irritado e sei que é a senhora do lado que está a sair para a sua primeira volta do dia.

De igual modo, os sons dos caixotes a serem lavados e recolhidos nos prédios são agora  sons apreciados, porque nos lembram que existe um fio que nos liga. O fio da normalidade pretendida.

O fio que nos diz que estamos todos juntos, que ninguém controla nada sozinho. 

Já agora e para falar de imagens, acrescento que a foto é de uma laranjeira da rua a lembrar-nos que a primavera chegou.

A lenda de Samarcanda

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Samarcanda é uma cidade importante do Uzbequistão. Foi durante séculos, passagem obrigatória das caravanas da rota da seda e o seu nome surge ligado a uma misteriosa lenda.

Conta-se que há muitos anos atrás, um vizir encontrou no mercado a «morte» e pressentiu que ela andava à sua procura. Escondeu-se e foi falar com o califa pedindo-lhe um cavalo veloz e um saco de ouro, para poder fugir para Samarcanda, onde contava chegar ao cair da noite. 

E assim fez.

Mais tarde, o califa disfarçado foi ao mercado e encontrou a «morte». E perguntou-lhe, porque assustaste o meu vizir, que é um homem novo, de boa saúde?

A «morte» respondeu-lhe, eu não o queria assustar. Eu fiquei foi muito admirada por o encontrar hoje no mercado, quando eu tenho encontro marcado com ele esta noite em Samarcanda.

Há sempre um encontro marcado em Samarcanda, ou algures, na vida de cada um de nós.

Mas já agora, não esquecer que Samarcanda significa cidade ou fortaleza de pedra.

Cavalinho à chuva

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Nos dias que correm com o pavor do covid, seria de esperar que a grande preocupação fosse a saúde de cada um e dos nossos próximos.

Nada de mais errado. Passo a contar.

Estava um bonito vaso com plantas, no caso, uma begónia, a arrebitar à entrada da porta, quando porém, durante a noite foi cortada, estragada e roubada.

Bem sei que com mais tempo em casa, haverá quem se queira dedicar à floricultura, mas se apreciam as plantas, ao menos não as delapidem, cortem apenas um pezinho de lado, para não impedirem o seu crescimento.

Pois, pois, neste como em muitos exemplos de civismo ou de falta dele, é caso para dizer que bem se pode esperar por «tirar o cavalinho da chuva», porque isso não irá acontecer.

Fechados em si como narcisos

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Ela tem 80 anos, uma grande família e uma vida bem vivida, que procura que ainda seja ativa e útil. Conduz o seu carrito e aí vai ela para todo o lado.

Há semanas, ao entardecer,  regressando a casa foi assaltada à porta, caiu e esfolou o joelho, mas não quis que ninguém da família soubesse, pois já bem imaginava os ralhos e clamores que se seguiriam.

Mas agora teve mesmo de os ouvir, não pôde deixar de ser. Durante o fim de semana, telefonaram-lhe os filhos, as noras e os netos mais velhos, «mãe, avó, não saia de casa, deixe-se ficar fechada para não apanhar este vírus, olhe que a partir dos 60 anos já não há tratamentos, nem nada para ninguém...»

«E pronto», diz-me ela, «o que me resta é ficar agora em casa, tal como um narciso a olhar para a sua imagem.»

Ao menos, os narcisos podem estar debruçados sobre si, mas são  bonitos e alegram os campos.

O desgoverno que nos tem governado

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O País tem sido governado com algum desnorte e ao sabor de apetites, temos de reconhecer. 

O caso do novo, ou talvez não, aeroporto do Montijo é exemplar. Depois de anos de estudos, de investimentos, de projetos  e de promessas, lembram-se que, segundo uma lei anterior, afinal os municípios podem vetar esta decisão. Decisão esta, a construção do novo aeroporto, que se reconhece ser de interesse nacional. 

Fácil, muda-se a lei.

Pergunta 1: Mas como, se a oposição não concorda?

Pergunta 2: E só descobrem isso agora?

Pergunta 3: E porque aprovaram uma lei destas, senhores polítidos,  que um dos ministros veio dizer ser uma norma estúpida?

Que grande miopia. E estamos nisto.

Imagens que gritam

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Quando vamos escolher uma cadeirinha de transporte de criança ou um carrinho de bebé, sabemos desde logo, que os mesmos devem cumprir uma série de regras e homologações, talvez excessivas, digo eu, em nome da segurança e do bem estar do infante.

Porém, muitas crianças acossadas pela guerra na Síria, são transportadas de qualquer maneira na fuga das zonas de combate. Vemos na foto da Reuters, uma família de quatro pessoas numa mota, com um dos pequenos pendurado no braço da mãe, num inverno rigoroso, e sem qualquer garantia de haver espaço ou condições num campo de refugiados.

Trata-se dos horrores da guerra. «Mas as crianças, Senhor porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim?»

J, arrive

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Fora de série o concerto de Salvador Sobral no Centro Cultural de Belém em Lisboa,  depois no Porto e hoje ainda em Aveiro, para os felizardos que tenham conseguido bilhete, pois as casas estão cheias.

Na sala escurecida ouve-se a voz de Sobral e as primeiras notas de «J,arrive», a história dos que se vão, simbolizados pelos crisântemos, de crisântemo em crisântemo as nossas amizades partem, como a sentia Jacques Brel.

Estava ganha a partida. Mas o concerto não cessou de nos emocionar, com as belas canções, a encenação, as letras difíceis, o respeito pela poesia acima de tudo. Canções que o tempo não envelheceu e que muitos não ouviam há muitos anos.

Sem dúvida um excelente intérprete. Talvez venham aí mais concertos, Leonardo Cohen, por exemplo, quem sabe.

Rendas e não só

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Quem conhece a baixa pombalina, os seus prédios com fachadas iguais, as suas ruas geométricas, perpendiculares e paralelas, decerto notou o extravagante edifício da Rua do Ouro 88, conhecido por Edifício dos Leões, por ter na entrada duas esculturas alusivas. 

Este imponente prédio, construído no princípio do século XX, pelo arquiteto Ventura Terra para sede de um banco,  pertence hoje ao Santander, abrigando desde meados de Dezembro e até 17 de Maio, a exposição «Lar doce lar», da artista portuguesa Joana Vasconcelos.

Podem visitar-se três pisos da sede, com mobiliário e utensílios bancários alusivos e importantes obras de arte da coleção do Santander e ainda trabalhos desta autora, tão conhecida pela utilização de rendas e crochet.

Parecem mesmo umas portas velhas

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Ao passar pelo corredor da entrada do hotel Vila Galé em Elvas, deparamos com tábuas penduradas numa das paredes. Ao princípio parecem umas simples portas velhas que ali foram colocadas para decorar o espaço.

Depois à segunda vista, vislumbra-se o picotado ou sombreado a representar um olho, uma face e um rosto. Aliás, neste caso é mais fácil distinguir os contornos através da foto, do que através do olhar. 

Trata-se de uma obra de Alexandre Farto, pintor, ou Vihls grafiteiro, como também é conhecido. Artista urbano, começou a pintar e grafitar paredes ainda miúdo, na margem sul do Tejo, mas hoje na casa dos 30 anos, está representado em edifícios de vários países da Europa e nos Estados Unidos da América.

Olhando com mais atenção, esta composição parece ganhar vida e volume, numa harmonia de cores e materiais, que nos interpela e nos confunde. Como é característico nunca se sabe bem, onde começa a obra do autor ou a imperfeição ou textura do material.

Há sempre lugar para diferentes leituras.

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